A VIDA É UMA EVOLUÇÃO IDIOTA RUMO À INÉRCIA
A preguiça é o auge da linha evolutiva. É preciso vivê-la ao máximo para ultrapassarmos a inquietude e atingirmos a autossuficiência. A inquietação é um movimento de busca. Os inquietos assim o são porque estão tentando se encaixar no mundo. Se uma coisa viva está insatisfeita, ela se move em busca de se satisfazer. Mas se está saciada, então não se move. Só há tédio na plenitude. Não fazer nada é se realizar. Entediar-se é se autobastar.
Ao nos mantermos parados e conformados, sem a sensação de que é preciso agir, deixamos de lado o impulso de nos esforçar. De fato, já estamos tão adaptados à realidade que todos os dias comemos, dormimos, pegamos o elevador, trabalhamos, ganhamos dinheiro, carregamos nossos celulares via internet – vivemos, sobrevivemos e nos comunicamos. Você pode criticar esse comportamento, mas não pode dizer que ele é ineficaz. Na verdade, ninguém quer ser diferente de como eram os nossos pais quando tinham a nossa idade. No máximo, queremos ter um trabalho com horários mais flexíveis, ou gerar menos filhos, ou criar um gato ao invés de um cachorro (esse animal tão carente). Mas não se engane: todos estamos reproduzindo aquilo que abominávamos e que chamávamos de: o fracasso da espécie humana. Casamento só mudou de perspectiva – sofreu leves emendas. Às vezes inclui um terceiro participante. Às vezes tolera rodízio de casais. Outras vezes aceita quartos separados e a masturbação sem culpa. Mas o casamento está aí: as pessoas se casam. E também se separam, previsivelmente. Fazem contratos e quebram contratos sem a menor surpresa. Estamos tão bem encaixados no mundo como nunca antes estivemos. Mantemos os nomes das instituições e nos modificamos para sustentá-las: família, estado, empresa, salário, artes. A troco de quê? De mudarmos o mínimo possível.
Finalmente compreendemos que arriscar-se por uma vida diversa dos padrões dados dá muito trabalho, hipertensão, diabetes – e vamos ficando por aqui mesmo, porque o sofrimento diante do fracasso humano é parte da vida e aquilo que nos deprime não passa disso: vida. Se fracassamos é porque estamos vivos. Então nos contentamos em nos glorificar, mas sem sair do fracasso. Não adianta correr. Morrer é pros fracos. Não vamos nos dar ao trabalho de fugir do que nos é dado. Aceitar é sábio. Ninguém quer mudar. Ninguém precisa se mudar. Aqui é quentinho e já sabemos como funciona. Engorda um pouco, mas tem um bom gosto na boca.
Podemos nos camuflar por baixo de edredons, podemos passar despercebidos atualizando nosso perfil no facebook ou fazendo perguntas no formspring sem nos identificarmos – e teremos nossas respostas do mesmo jeito, talvez até com mais honestidade. Nosso sistema de camuflagem superou o do camaleão, da onça, do índio. A gente se esconde no meio da própria gente. E assim fazemos compras, tomamos um café antes de entrarmos no cinema, visitamos nossos pais e constatamos nosso envelhecimento, caímos ou não caímos na malha fina do imposto de renda, mas no final do ano desejaremos feliz natal do mesmo jeito, receberemos ofertas de máquinas de lavar por e-mail no dia das mães e seremos abraçados nos nossos aniversários. Aquilo que se repete merece o troféu da resistência. A vida que consagramos é campeã. Estamos de parabéns. Não vamos mudar.
Se você sofre daquilo que se costuma chamar de tédio, sinta-se honrado. Você atingiu um ponto raro, um ponto culminante. Você representa a chegada da humanidade a um novo patamar evolutivo. Agora vá até o twitter e diga: amgs, cheguei lá, o tédio me abraçou, acreditem em vcs mesmos, um dia todos vcs tb conseguirão.
Depois de dois minutos esperando possíveis retweets, tome um banho (se você é mesmo entediado, esse deve ser o seu primeiro banho em dias), vista novamente o pijama e abra uma cerveja. Cabe a você se desafiar e tentar alongar a experiência da inação por dias seguidos. Seja persistente. Não saia de casa. Não destranque a porta à toa. Adie a descida de escadas para colocar o lixo lá fora. Peça pizza por delivery. Peça mais pizza. Junte as caixas de pizza e crie um pódio para brincar de campeão da pizza. Pague suas contas online. Regue a samambaia. Mande e-mail para os amigos, vocês se gostam mas não precisam se encontrar para se manter próximos. Se você não trabalha em casa, desfrute dos finais de semana e jamais aceite convites para baladas. No máximo, diga aos amigos que vai se esforçar para comparecer e depois deixe seu celular descarregar espontaneamente. Aparelhos eletrônicos descarregam porque estão cheios de tédio.
Planeje suas férias para o isolamento total, ligue para sua mãe e diga que você precisa organizar a casa e não poderá visitá-la dessa vez. Caso sua vida profissional consista em fazer frilas em casa vestindo o seu pijama – e suas férias portanto não são pagas –, o fato de você não ter que escovar os dentes para fechar negócios te coloca ainda mais próximo do clímax inercial. Para atingir a plenitude e se banhar no tédio de ser o seu próprio deus, alterne as horas de trabalho com: a) visitas a blogs literários, b) downloads de discos, c) visitas a blogs de crítica musical, e d) disk-cerveja. Caso surja alguma pendência a ser resolvida no mundo prático, resolva por gtalk, facebook, whatsaap, skype ou, em última instância, por ligação telefônica. Jamais abra espaço para a negociação: você não vai sair. Você não vai ver ninguém. Você não vai muito longe. Já fomos longe demais. Ninguém precisa mudar.
A CAPA DO LIVRO E O RELEASE DA EDITH
>>>>>>>>>>>>> “Em seu livro de estreia, Thiago Barbalho foi até o fundo do poço e trouxe de lá a história de um adolescente atormentado por pesadelos que passa as férias trancado em casa, onde mata o tempo com videogames, garrafas de uísque e música, relembra a infância turbulenta e sente falta de Farto, seu porquinho-da-índia que está morto e enterrado no quintal. A busca por um lugar no mundo e uma certa crise na relação com a mãe e o padrasto o levam a cavar um buraco no mesmo terreno em que descansa seu bicho de estimação. Lá, ele poderá se esconder e se sentir acolhido. Com desenhos do artista plástico Júnior Suci, Thiago Barbalho vai para o fundo do poço fala da necessidade de pertencimento num mundo cuja falta de sentido é assustadora.”
[Depois do lançamento, que será dia 16 de maio no bar Sabiá às 19h30, o livro vai estar à venda online na loja da Edith. Mas eu espero que todo mundo apareça no bar!]
LANÇAMENTO DE LIVRO EM NOSSAS CABEÇAS

Meus amigos, venho por meio & fim desta postagem avisar-lhes do glorificante evento chamado Lançamento do Meu Primeiro Livro. Thiago Barbalho vai para o fundo do poço, que sai pela Edith esse mês, é uma novela da coleção Que Viagem, cujo mote consiste em levar escritores a lugares improváveis, de onde alguns conseguem voltar e entregam ao mundo seus diários de viagem. O meu destino foi o fundo do poço – veja que alegria(!). A verdade é que eu me senti em casa e não escolheria outro cantinho.
A ilustração acima é uma das que fazem parte do livro. Elas foram feitas por meu amigo Júnior Suci.
Logo mais teremos imagens divulgáveis & fofas & compartilhantes em redes sociais com as quais encheremos o saco até que todos se convençam a comparecer à noite de dedicatórias embriagadas. Por ora, programem seus telefones inteligentes pro seguinte:
16 de maio
19h30
Sabiá - rua purpurina, 370 (esquina com a fidalga)
vila madalena
Abs Bjs Sdds
NINGUÉM PODE FREAR UMA EXPLOSÃO

” ” “A maior besteira que a mente humana já concebeu foi a ideia de libertação por meio da morte do desejo. Por que frear a vida, por que destruí-la em nome de um ganho tão pouco fecundo como aquele de uma indiferença total, de uma libertação que nada significa? Com que atrevimento ainda podemos falar da vida, depois de tê-la aniquilado completamente dentro de nós? Tenho mais estima pelo homem de desejos contrariados, desgraçado no amor e desesperançoso, do que pelo sábio gélido, de uma impassibilidade orgulhosa e repugnante. Não consigo conceber um mundo mais antipático do que um mundo de sábios. Todos os sábios deste planeta deveriam ser irremediavelmente destruídos para que a vida continuasse a existir assim como é: cega e irracional.
Seria bom que os países capturassem todos os sábios e os encarcerassem num castelo abandonado, para que não perturbassem mais ninguém. Detesto a sabedoria dessa gente que não sente dor diante da verdade, que não sofre com seus nervos, com sua carne e com seu sangue. Deveriam ser declaradas nulas todas as verdades dessa gente ressequida, que pensa sem esperma no cérebro, sem angústia e sem desespero. Respeito apenas as verdades vitais, orgânicas e espermáticas, pois sei que não existe verdade, mas apenas verdades vivas, frutos de nossa inquietude. Não há argumentos decisivos contra quem pensa com vivacidade. E mesmo que houvesse, eles só poderiam ser derrubados por desgaste. Só posso lamentar que ainda exista gente que esteja em busca da verdade. Ou será que os sábios até hoje não entenderam que a verdade não tem como existir?” ” “
Ci Çi Sim: Cioran, em Nos Cumes do Desespero
O DESPRENDIMENTO DAS GELEIRAS E A FORMAÇÃO DOS ICEBERGS
o impulso mais selvagem que eu tinha
posso hoje dizer que foi domesticado
e que a civilidade da convivência que me transformou num adulto
em breve vai me ensinar a dar adeus às pessoas que passam
se a violência de uma educação não é pouca
as cicatrizes formadas nesse processo criam esculturas na pele e na memória
mais resistentes que palmeiras e bustos numa praça, aonde quer que suas raízes cheguem
desconfio que estou cada vez mais perto de me tornar um iceberg
ao passo que minhas quatro patas vão criando cascos de gelo pra me proteger do fogo embaixo de mim
este é um mecanismo de defesa bastante viável mas também pode desenvolver um câncer por autorrejeição
o que posso dizer disso tudo não é muito, mas tudo bem
vamos nos falando ou vamos nos esquecendo
até que o calor nos quebre em calotas e nos leve pra bem longe
PIGEONS, TAKE A LOOK AT THE CITY, PEOPLE ARE GOING DOWN EVERY DAY WHILE THERE’S SO MUCH BEAUTY AT ART GALLERIES
I need to walk in your streets, fly over your river, I want to cross all your bridges, I don’t know where the last stop is, but I need to go, I need to go ahead in you, I put my feet in your crevices, I have wings, I am a pigeon, but I prefer to balance my body on yours. I can cut myself, I can hurt my skin, but there’s an instinct pulling me, I go ahead even if I’m not ready, I read your nameplates, I see other names in it, but I try to come in, I try to go inside but I don’t have a ticket. The door wasn’t open, so I jumped the window. There was a purple sunset inside your building and all the dust was so gloomy; there was that smile, your smile, as a painting on the wall. And I stopped walking, I’m still in front of this painting, astonished as I am, looking at this landscape between your teeth, feeling the good breeze coming from your tongue. And now, as I am a pigeon, I forgot why I came in, where I was going; I don’t know what my reasons are anymore. Now I’m here, I could use my wings, but maybe I prefer to stay.

